Uma paixão maior que a minha
Pin ItCaro Ricardo,
Tô há um bom tempo pra escrever-te, mas, no capricho de querer contar um pouco das minhas coisas - oque sempre acaba virando dezenas e dezenas de linhas - , ele acaba nunca saindo. Vai este e-mail, então, mais simples, mas tão sincero quanto seria o outro...
Caro, Ricardo. Tu tens a minha admiração: aquela admiração que sai lá do fundo do coração. Putz, Ricardo, tu és um artigo raro, raríssimo. Neste país do comodismo e do fazer-sempre-igual, encontrar um cara apaixonado é coisa quase impossível. Tenho 25 anos e já duvidava que pudesse ter alguém no mundo que compartilhasse comigo essa vontade imensa de ir além.
Ah, que triste, Ricardo! Se tu saisses a caminhar comigo num domingo de sol aqui em Porto Alegre tu ias ver. Todos da minha geração querem ser advogados medianos, engenheiros medianos, administradores medianos. Querem ser medianos pois seus pais o são. Querem fazer concursos nos tribunais para garantir uma boa remuneração e a segurança de passear no mesmo shopping no final de semana pra ver o mesmo filmezinho qualquer com o mesmo ator qualquer. Todos querem trabalhar em salas com carpetes, computadores com Internet e café de graça. Todos querem morrer sem ter conhecido essa imensidão de cores que é o mundo. Sem ter tido a chance - chance que esse sábio que é Deus dá pra todo mundo - de lutar pra ser trilionário, ou lutar pra ser presidente, ou lutar pra ser o melhor dos melhores no que quer que seja. Ora bolas, morrer sem ter tido a chance de ter feito diferença.
Quando larguei a faculdade há poucos anos, consciente de que estava fazendo uma das melhores coisas da minha vida, todos me olhavam com ar de "Ah, mas como pode?". Como pode? Eu me perguntava como pode um "mestre" cretino qualquer pedir-me pra analisar logotipos de pasta de dente quando algum dos logotipos mais originais, revolucionários, criativos e inovadores estão sendo criados por alguns dos melhores designers do mundo na Bélgica ou num outro país que nem sabíamos que existia?
Na época, por uma dessas tantas ironias coincidentes da vida que acabam te obrigando a acreditar numa força superior, Deus me botou na frente um artigo seu, que dizia: "Me cansa as escolas que ensinam regras, fórmulas e planos às pessoas. Me cansa as pessoas que procuram por essas escolas. Me cansa as pessoas que procuram as pessoas que procuram essas escolas. Me cansa todo aquele que procura pela fórmula da verdade para encurtar as coisas, facilitar a vida e ter tempo para descansar."
Este trechinho sintetiza o artigo, mas o artigo TODO foi uma espécie de chute na minha bunda. Um chute lindo, forte e apaixonado que me jogou pra frente e me botou pra correr com força redobrada. Aquela confiança que eu tinha - confiança de saber que ir muito além do que todos na volta me apresentavam era a única forma de fazer minha vida plena - ganhou uma força extra. Na época achei essa força extra tão apaixonada e tão tradutora de meu próprio sentimento, que correu uma pequena lágrima de alegria.
Assim como tu, Ricardo, acordo todo dia pra fazer minha vida ser significativa e provar pra Deus e prô mundo que todos podem e devem querer e correr pra serem mais, pra irem muito além. Todos devem correr pra fazer logotipos e folders que definam tendências, que embasbaquem o mundo, que criem novos padrões.
Repito, cara: tens a minha admiração. Tua paixão é linda de se ver e de se ler. Continua mandando bala em quem recebe essa coisa linda e valiosa que é a vida e transforma num amontoado disforme de mediocridade. Saibas que tem um designer gráfico aqui de Porto Alegre pronto pra te apoiar e ajudar no que for preciso. Saibas que tua paixão é contagiante. De certa forma - e no bom sentido - saibas também que sobra uma pontinha de inveja minha por eu me dar conta de que tua paixão é tão forte que eu não sei se não supera a minha.
Um abração, cara,
Pablo Cabistani
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