Bill Gates 2.0
Bill Gates é o meu ídolo máximo no mundo dos negócios. Eu gosto do Steve Jobs, eu gosto muito do Sam Walton, eu admiro o Jeff Bezos, reverencio o Thomas Watson Jr da IBM e gosto de muitos outros revolucionários e inovadores, são tantos que nem cabem aqui. Mas é o Bill Gates o cara mais revolucionário de todos. Judeu, nerd, feinho, baixinho, bitolado, perebento, Bill Gates é o cara responsável pela revolução da microinformática. Se não fosse ele e sua turma da Microsoft, o mundo da computação talvez ainda estivesse restrito aos CPDs das grandes empresas. Foi ele que viu antes de todos que o software poderia ser a grande produto do século 21, e um dia todo mundo teria um computador na sua mesa. A indústria de microinformática explodiu. Hoje, o micro que eu estou digitando esse texto tem mais potência do que o CPD de um grande banco com o Bradesco quinze anos atrás.
Bill Gates se aposentou da Microsoft na última sexta-feira. Ele vai embarcar no projeto Bill Gates 2.0 onde vai se dedicar a filantropia e se reinventar como profissional. Bill é o cara. Na primeira parte da vida ele construiu a indústria mais interessante e relevante dos últimos 500 anos, a indústria da microinformática, e agora na segunda parte da sua vida vai se dedicar a causas sociais. Show!
A minha história com o Bill Gates e Microsoft não se restringe apenas aos livros que li e histórias que muitos conhecem. Eu vivi na pele as suas idéias e sempre fui parte integrante do sucesso da Microsoft e colhi parte de toda a riqueza que eles geraram.
Eu era um simples estagiário de marketing quando conheci a Microsoft. Na época, em 1989, o Windows ainda não existia efetivamente. O DOS era o produto mais vendido da Microsoft, veindo por alguns milhões de cruzeiros velhos ou qualquer outra moeda falida da época. O processador de textos mais vendido do Brasil era o WordStar, a planilha era a Lotus 1-2-3, o banco de dados era o dBase, o software para fazer apresentações era o Harvard Graphics, o utilitário mais vendido era o PC Tools, o correio eletrônico era o CC:Mail, a rede era a Tapestry e o sistema operacional de redes era Novell.
Todos esses produtos eram líderes de mercado. Produtos fantásticos com representantes brasileiros engomadinhos e arrogantes. Eu me lembro como se fosse hoje a maneira arrogante que eu era tratado na época. Apesar de já fazer parte de uma grande empresa revendedora de software, a Brasoftware, eu era ignorado pelos executivos da Novell, Lotus etc. Eu queria falar sobre marketing, vendas, novos projetos, mas eles nunca retornavam qualquer ligação. Estavam muito ocupados colhendo o fruto do sucesso dos produtos.
Chegou então a Microsoft. Aberta, super parceira, disposta a criar um canal sério, forte e integrado. Ela criou políticas de canais muito antes de qualquer um entender o que significava programas de relacionamentos. Enquanto os galãs da época tinham um jeito careta de fazer negócios, a turma da Microsoft trazia para o Brasil uma cara cool, um escritório cool, uma cultura jovem muito diferente do que existia na época. Comida grátis, lavanderia grátis, serviços de concierge para os funcionários eram algumas das inovações oferecidas aos funcionários no príncipio dos anos 90.
Hoje se fala muito sobre o escritório e a maneira despojada da Google de fazer negócios, mas foi a Microsoft que inventou tudo isso. Antes do Bill Gates, os executivos falavam difícil, eram inacessíveis, usavam gravatas listradas, ternos escuros e camisas brancas. Depois do Bill Gates, o mundo executivo ficou ágil, aberto, menos quadrado. Antes de Bill apenas os acionistas ganhavam dinheiro da empresa, depois de Bill todos os funcionários passaram a ter acesso as ações da empresa através de programas de stock options entre outros benefícios relacionados a distribuição de riqueza.
Milhares de funcionários se tornaram milionários com a cultura da distribuição de riqueza e meritocracia que a Microsoft criou e hoje é copiada por centenas de empresas.
O interessante é que Bill Gates inventou essas práticas sem copiar de nenhum livro de negócios. Bill Gates não terminou nenhuma faculdade. Ele largou a Harvard no primeiro ano para se dedicar de corpo e alma para a Microsoft. Talvez por isso que ele tenha conseguido criar uma cultura empreendedora e inovadora na Microsoft. Será que ele teria criado algo tão fora da caixa se tivesse se submetido aos conceitos retrógrados e lentos que mesmo Harvard ensina aos seus alunos?
Eu acho que não. Quantos MBAs e cursos de administração - passados 40 anos - ensinam hoje empreendedorismo para os alunos? Ou, como começar uma empresa do zero e ser dramaticamente diferente da concorrência?
Bill talvez não tenha inventado nenhum grande software. Ele fez apenas o DOS, o Windows, o Office, o Microsoft mouse, o XBox, produtos commom sense hoje, mas que na sua época foram muitos relevantes. Gates inventou a indústria do software quando todos achavam que hardware era a bola da vez.
Uma das frases mais famosas de Gates sobre sua visão dos negócios é "Nós procuramos por negócios onde possamos ter uma grande participação de mercado, e não apenas os tradicionais 30% ou 35%". Por trás da cara de nerd sempre se escondeu um executivo ultra agressivo que trabalhou duro enquanto a concorrêcia dormiu em berço esplêndido.
O filme Piratas do Silício que eu exibi no último HollyCEO tem uma cena muito bacana que reproduz fielmente o que Bill Gates teve que fazer para conquistar a IBM quando a Microsoft era uma micro empresa no segundo andar de um posto de gasolina.
A cena abaixo, como diz o personagem do Steve Ballmer durante o trecho selecionado, deveria estar nos livros de história de todo o planeta.
Bill Gates é o cara, sua vida deve ser estudada por nossos tataranetos. Sua trajetória é mais enriquecedora para uma criança do que a história de como Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil.
QUEBRA TUDO!

































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