A minha vingança é a fraternidade.
Talvez você seja enganado se confiar demais, mas levará uma vida de pesadelos se não confiar o suficiente.
Qual é a pior coisa que você pode fazer a uma pessoa que te fez um grande mal?
Fazer a ela um grande bem.
Eu sempre acreditei nisso e procuro viver a minha vida baseada nessa crença apesar de todo cinismo que encontro pela frente. Ser decente com os outros é muito mais importante nessa vida do que demonstrar que possui uma grande quantidade de conhecimento na sua cabeça, ou vencer uma discussão ou briga. Ser decente com os outros é muito mais importante do que qualquer outra coisa.
Recentemente, graças a essa fantástica criação chamada internet, um amigo dos tempos do jardim de infância me encontrou. Nós tínhamos cinco anos de idade quando nos conhecemos. Eu não me lembrava dele, mas ele se lembrava de mim até hoje. Trinta e cinco anos depois. Em um dos primeiros e-mails que trocamos, eu perguntei a ele, "Por que você se lembra de mim?", "Ricardo, eu me lembro de você porque um dia você levou para a escola um carrinho de bombeiros novinho, lindo, maravilhoso, e eu te perguntei se você podia emprestar o carrinho para eu levar para a minha casa, e você disse que podia. Minha mãe ficou uma fera quando apareci com o brinquedo em casa, ela pensou que eu tinha roubado. Eu imagino que a sua mão também ficou uma fera com você por ter sumido com o carrinho de bombeiros (eu provavelmente apanhei até ficar com as pernas em carne viva. Naqueles tempos os pais batiam nos filhos e nem por isso eu cresci torto). No dia seguinte eu trouxe o carrinho de volta para você. Isso me marcou para sempre. Nenhuma criança emprestava nada, e você me emprestou o seu brinquedo novinho".
Eu não me lembrava dessa história, mas quando recebi esse e-mail, eu me lembrei de outra história que aconteceu comigo.
Eu tinha uns 10 anos de idade. Eu havia acabado de ganhar uma bicicleta novinha. A primeira verdadeira bicicleta. Meus amigos, mais velhos, gostavam de andar de bicicleta na rua. Minha mãe, ainda mais velha, dizia para não andar de bicicleta na rua porque era muito perigoso. Tinha os carros, e tinha as pessoas estranhas. Não dei bola. Fui para a rua com os amigos e a minha bicicleta nova.
Depois de subir algumas alamedas aqui, outras ali, entramos em uma rua bloqueada pelo famoso bando de trombadinhas do bairro. Parecia cena de filme. De um lado um bando de filhinhos de papai amedrontados, do outro lado uns vinte moleques maltrapilhos sem tênis no pé ou bicicletas para brincar.
Os meus amigos não tiveram dúvida, viraram suas magrelas (naquele tempo bicicleta era chamada de magrela e não bike - acredito que seja porque as bicicletas daquela época não tinham qualquer tipo de recurso técnico, nem marchas, nem pneus especiais, nem breque japonês, nem nada. Andar de bicicleta dependia pura e simplesmente do fôlego do moleque), e começaram a voltar por onde vieram. Eu não me mexi. E comecei a pedalar em direção ao bando de trombadinhas. Eles realmente eram trombadinhas. Os meus amigos não eram preconceituosos. O bairro era pequeno. Todos nós já tínhamos visto alguns deles roubando rádio de carro ali perto. Eu não virei, fui em direção a eles, e quando tentei passar no meio da turma, um deles me agarrou por trás pelo pescoço e me tirou da bicicleta. Um deles, o mais alto e mais forte, o líder do bando, que inclusive já tinha colocado uma faca no meu pescoço em outra oportunidade (essa história vai ficar para outro dia), virou para mim e disse, "A sua bicicleta é muito bonita. Eu sempre quis ter uma dessas. Eu posso dar uma volta com ela?", "Sim, claro", respondi. Ele subiu na minha bicicleta, empinou em uma roda, e se mandou dali.
Fiquei ali rodeado pelos seus amigos que riam de mim. Olhei para trás e vi a distância todos os meus amigos olhando a cena de longe sem se aproximar. Por um momento pensei, "dancei, perdi a bicicleta, vou tomar uma surra dos meus pais”, por outro lado lembrei, o garoto disse que queria a bicicleta para dar uma volta. Ele não disse que ia roubar a bicicleta. Vou esperar por ele. O menino se chamava Gérson, o maior trombadão do bairro.
Eu esperei. O tempo passou. Uns 30 minutos, eu acho. Alguns dos meus amigos foram embora, dois ou três continuavam esperando, foi quando o Gérson apareceu com a minha bicicleta a toda velocidade e com um saco de pão na mão. Ele passou voando no meio da sua turma, e parou na minha frente com um cavalo de pau de marcar o chão. Ele disse, "A sua bicicleta é muito boa, rápida, deu até para comprar um pão na padaria do parque. Você quer um pedaço de pão? Será que os seus amigos que estão lá longe querem um pedaço de pão?", "Eu quero obrigado. Acho que eles também querem". Quando os meus amigos viram que a bicicleta voltou, e eu estava comendo alguma coisa, eles vieram devagar até nós, ganharam um pão, apertamos as mãos, e seguimos em frente pelo meio da turma do Gérson.
Eu me lembro dessa cena como se fosse hoje. Eu acredito que o Gérson, esteja onde estiver, também se lembra. Eu acredito que de alguma maneira, naquele dia, algum tipo de elo de fraternidade foi criado, e ele saiu dali melhor do que chegou, como deve ter acontecido comigo.
Os cínicos de plantão podem não acreditar nisso. Mas eu acredito. Eu acredito em compaixão, fraternidade; eu acredito em generosidade, e acredito que eu posso mudar as coisas ao viver de verdade o que acredito. Não seja cínico sobre isso. Ser cínico pode ser bem perigoso para você. Porque quando se é cínico sobre as outras pessoas, você pode acabar perdendo as suas próprias convicções.
O que vai sobrar de você quando perder as suas maiores convicções?
Nada.
O mundo em que vivemos está populado de pessoas generosas e incríveis atos de fraternidade frente as mais terríveis adversidades. As minhas histórias não são nada perto do que acontece aí fora. Todos os dias eu fico sabendo de histórias reais de alguma pessoa de bem fazendo o bem para quem teoricamente não quer o bem.
Entre muitos sonhos, objetivos e metas que eu tenho, eu espero que em um futuro muito próximo todas as pessoas desse planeta possam receber todos os dias uma dose diária de notícias positivas. Todos os dias. Seja pela televisão ao acordar pela manhã e sintonizar em um canal que mostra histórias de seres humanos que construíram coisas extraordinárias. Seja ao conectar-se a internet através do seu smartphone e visualizar imagens, sons, vídeos e textos de pessoas incríveis e seus incríveis inventos para melhorar a sociedade. Seja ao entrar no carro, no trem, no ônibus, e conversar com outras pessoas sobre rápidos fragmentos de histórias positivas que são passadas de pessoas a pessoas com a melhor das boas intenções.
Compartilhar histórias positivas com outras pessoas. Nada menos que isso interessa. Todos os dias. Esse é um grande presente que você poderia estar deixando para todos que te cercam.
Ao invés de notícias sobre mortes e guerras, histórias sobre generosidade e fraternidade; ao invés de notícias sobre facilidades e conforto, histórias sobre coragem e sabedoria.
Eu não quero que você saia daqui hoje marcado pela minha história do carrinho de bombeiros ou bicicleta. Eu quero que você que saia daqui hoje com a imagem de duas pessoas na sua cabeça: Nelson Mandela e John Hume. Eles sim inspiraram durante mais de vinte anos a vida de milhões de pessoas por todo o planeta. Inclusive eu.
Nelson Mandela, primeiro presidente negro da África do Sul, lutou com todas as suas forças para acabar com o Apartheid - o regime de segregação racial que negava a grandíssima maioria negra da África do Sul os seus direitos políticos, sociais e econômicos. Por sua luta contra o regime da minoria branca, Mandela foi preso em 1962 e condenado a prisão perpétua. Libertado em 1990, depois de intensa pressão da opinião pública mundial pelo fim do Apartheid, Mandela passou a ser o líder do povo africano que exigia mudanças. Alguns mais radicais queriam que Mandela liderasse uma guerra de armas contra a minoria branca e tomasse o poder pela força. Mandela se recusou a fazer isso.
Apesar de todas as privações que passou na prisão, Mandela saiu de lá sem qualquer rancor, amargura, ou ódio em seu coração. Quando você olha uma das milhares de fotos que você encontra de Mandela na internet, você sempre o encontra sorrindo e de bem com a vida, você não consegue imaginar que esse ser humano tão feliz possa ter passado trinta anos da sua vida encarcerado em uma prisão quente na África do Sul.
"Você não pode chegar a uma solução para os problemas de uma sociedade sem levar em conta a opinião daquele s que se opõem fortemente a sua opinião. Você precisa encontrar uma maneira de sentar-se à mesa com essa pessoa e entender as razões por trás de uma opinião tão contrária a sua'. Nelson Mandela.
John Hume, prêmio nobel da Paz em 1998, é um político da Irlanda do Norte reconhecido mundialmente pelos seus esforços para acabar com os conflitos que por muitas décadas aterrorizaram a Irlanda do Norte e Reino Unido. Por sua batalha pela paz na Irlanda do Norte, John Hume foi chamado para fazer parte do Parlamento Europeu na década de setenta.
"Quando eu fui eleito para o Parlamento Europeu, eu sai para passear. Quando cruzei uma ponte em Strasbourg na França para Kehl na Alemanha. Eu parei sob a ponte e meditei. Eu disse: Ali está a França e ali está a Alemanha. Se eu tivesse parado sob essa ponte trinta anos atrás, no final da Segunda Grande Guerra Mundial, o pior pesado de toda história da humanidade, e dito a algum colega meu, "Não se preocupe, daqui trinta anos nós teremos uma Europa Unida", ele teria me enviado a um psiquiatra. Mas aconteceu, nós unimos todo o continente europeu."
Houve certa vez uma experiência feita com ratos onde os cientistas tentavam descobrir como os ratos desenvolvem dendritos no cérebro. Os cientistas queriam descobrir quais são as condições que realmente fazem o cérebro crescer. Então eles colocaram um rato em uma jaula e deram a ele tudo que ele queria: comida, água, tudo, absolutamente tudo. Eles colocaram então outro rato em outra jaula, e ele também tinha tudo, mas tinha que manter todos os dias uma esteira girando. E então eles colocaram um terceiro rato em uma terceira jaula, e duas vezes por semana tiravam o rato de dentro da jaula e jogavam o bichinho dentro de um labirinto, mas não um labirinto qualquer, um labirinto que ameaçava a sua vida. Entre outras coisas, ele era obrigado a subir em um poste, e pular dentro de uma bacia de água a vários metros de altura, o suficiente para deixar qualquer pequeno ratinho apavorado até a alma. Terminada as semanas de experiência, eles picotaram os cérebros dos ratinhos para checar qual ratinho tinha desenvolvido um maior número de dentritos no cérebro. O rato que tinha tudo, não desenvolveu nenhum mísero dendrito. O rato que tinha tudo mas tinha que trabalhar todos os dias desenvolveu alguns dendritos mas não os conectou a nada. E o rato que tinha que sobreviver, desenvolveu centenas de dendritos e conectou todos.
Você tem três vidas para escolher. Você pode escolher levar uma vida de conforto e segurança, ou uma vida de trabalho individual e privado que eventualmente te levará a ter coisas e poder comprar uma bicicleta nova para o seu filho; ou escolher levar uma vida de utilidade pública. Uma vida de servir aos outros, uma vida dedicada a servir o maior número possível de pessoas, se expondo, arriscando o pescoço, praticando suas mais nobres convicções em pró de fazer uma revolução pelas próximas gerações. Nessa vida, você pode não atingir a totalidade dos seus objetivos, mas estará ajudando a construir uma sociedade onde todos procuram compreender todos.
NADA MENOS QUE ISSO INTERESSA.
QUEBRA TUDO! Foi para isso que eu vim! E Você?
Eu fiz aquilo pq te amava jordao.
Posted by: Gerson | 30/06/2009 at 07:53 AM
Parabéns Ricardo!
Eu também acredito no amor e na fraternidade como filosofia de vida. Cada um dá o que tem, né?
Abraços
Posted by: Monica Fuchshuber | 30/06/2009 at 10:15 AM
Parabens!!! Este eu gostei muito.
Vc realmente tocou os grandes pensamentos que movem o espírito humano. As dificuldades, tensidade, fases, contradiçoes, os conflitos snetimentais e exemplos grandiosos que deixam marcas!!!
A minha história inspira um pouco disto;
Lendo esse post, eu revivi com força os meus momentos onde eu era um anti-cristo ferrenho e ainda insatisfeito passei a marchar no movimento neo-nazista em 1995 para o maior pesadelo dos meu pais. Fiz muitas atrocidades e vivi cenários de horrores no qual hoje eu sinto muito remorso,hoje respiro aliviado por não ter tirado vida naquela marcha,pois estive muito perto disto. A história deu aquela famosa reviravolta, tomei minhas surras,socos,vivi pesadelos e consegui curar, hoje sou um homem bem inspirado por Jesus Cristo e Paulo de Tarso sob outra visão de Deus(Entheos). Agora percebo que quando mais eu odiava Jesus naquela época, eu estava na verdade abrindo mais ainda as portas para amar-lo MUITO MAIS!!! Assim como também fez Paulo de Tarso!!! Por isso que de neo-nazista eu acabei vrando um neurohacker de jesus.
Jesus já foi, estamos na era de cristo, quem será o próximo espírito homem a trazer a nova era?
MR.
Posted by: Mateus Resende | 30/06/2009 at 11:20 AM
Ricardo,
Estou sem palavras. Maravilhoso seria a única em que condigo pensar no momento. Escreva mais livros - LOGO!!!
Posted by: Susana Coninck | 30/06/2009 at 11:57 AM
Olá Ricardo Jordão!!!
Como sempre seus artigos são fantásticos, porém este em especial me encantou!! Também acredito na fraternidade e no amor ao próximo como fonte de mudança. Sua atitude, muito mais que suas palavras demonstra que tipo de pessoa que você é. Parabéns!!! Você não tem vergonha de se expor e até correr riscos por suas idéias!!! Agradeço imensamente o privilégio de receber esse material tão rico e espero um dia lhe conhecer pessoalmente!!
Rita Buratto
Posted by: Rita Buratto | 30/06/2009 at 12:49 PM
Gostei. Mas que é duro "engolir sapo", isso é! Concordo plenamente com sua visão, mas não vejo como fazer isso, principalmente no mundo corporativo, sem ser passado para trás. Claro, devemos ajudar o maior número de colegas de trabalho que pudermos, e isso sempre trás benefícios (mesmo que não seja esse o maior objetivo). O problema é o "cara mau" querendo te pisar. Nem sempre você consegue harmonizar-se com ele/ela apenas fazendo o bem que seu coração manda. A gente sempre vê pessoas menos capacitadas, menos "do bem" chegando em altos cargos com altos salários (é verdado, nem sempre com uma vida "feliz", principalmente em família), mas o fato é que chegam lá.
É uma paradoxo que não consigo explicar. Dizer que "o mundo é dos espertos" e ficar por isso mesmo, não basta--precisamos agir e fazer o bem, ajudar as pessoas sempre que possível. Mas como não deixar as oportunidades passar, com onão ser passado prá trás, como ser bom e político ao mesmo tempo?
Não sei.
Abço
Posted by: José Pedro Sousa | 30/06/2009 at 12:53 PM
Parabéns Jordão! Este foi um rico recado àqueles que ainda acreditam na fraternidade. Seu texto carregado de bela proposta humanitária com certeza vai gerar bons frutos, se não na totalidade (sempre haverá resistência aos bons) pelo menos construirá momentos de reflexão para a maioria.
Certo dia um aluno comentou comigo à cerca de uma de minhas palestras dizendo que a teoria da fraternidade é linda, mas não funciona na prática. Ele argumentava que tinha sido bom com as pessoas, mas sempre era enganado e passado para trás. Pensei um pouco e disse: "...tenho uma forte inclinação de pensar que você não foi suficientemente bom nas coisas que disse ter sido. O bem sempre vence e se algumas pessoas que você ajudou, tempos depois te passaram a perna, e na sua visão elas se deram bem e você mal, devo concluir que elas estavam certas. Em algum momento você plantou no inconscientemente delas que se não fizessem isso com você não chegariam onde queriam. Pense nisso. Ser bom não significa 'parecer' bom, é fundamental ser bom na essência. Se você falhar a vida te devolve uma ação como 'espelho' para que você possa refletir a sua própria ação. E se, em sua análise desapaixonada, encontrar falhas... ainda é tempo de consertá-las quando tiver novas oportunidades".
Acho que falei tanto e em tantas direções diferentes para ele meditar que o silêncio dele me deu uma certeza: ele, no mínimo, deve ter pensado no assunto por outra ótica. Desta vez diferente de sua visão inicial.
Belo artigo, carregado de imagens que bem podem ser adaptadas ao dia-a-dia das empresas e na vida comum. Há de se proclamar a fraternidade, ainda que o ódio pareça sorrateiramente levar vantagem.
Posted by: Adonai Vásquez | 30/06/2009 at 03:45 PM
Ricardo,
Sem dúvida esse é o maior dos desafios lançados no blog.
Abraço!
Posted by: Lucas Oleiro | 30/06/2009 at 08:51 PM
Nossa vinagança é a Fraternidade.Ainda bem que essa "turma" existe. Que se multiplique.
Seu texto está bárbaro e contagiante!
Parabéns!
http://www.youtube.com/watch?v=PScUdYTO0UM
Posted by: Cecilia Luchetti | 01/07/2009 at 10:58 AM
Ricardo,
Muito bom o seu e-mail. Acho que devemos praticar esta coisas da forma que for possível.
Semana passada minha esposa despediu nossa empregada. Ela mereceu a demissão, mas quem sabe ela vai refletir sobre a lição que recebeu?
Quando a contratamos, vimos que ela não falava olhando direto para nós. Depois vimos que ela só tinha poucos dentes na boca, talvez 3 ou 4.
Chamei a minha mulher e pedi a ela que falasse com minha empregada se ela gostaria de ter uma dentadura. Custaria cerca de R$ 750,00.
Tendo feito a proposta, contratamos o dentista e solicitei a minha esposa que acertasse o pagamento da dentadura, contra recibos de adiantamento de salários assinados por ela, que nos valeriam no caso de esta pessoa "aprontar" alguma coisa contra nós, na hora da demissão, pois poderíamos descontar do acerto a pagar o valor da dentadura.
Mina esposa trata muito bem as empregadas. Tratou esta bem. Mas ela se revelou desde o início uma pessoa com vários problemas. Mentiu ao se contratada, pois disse que não fumava. Foi solicitado para que ela avisasse quando fosse faltar, mas ela não fazia; faltava sem avisar.
Sua filha ligava a cobrar para nossa casa, contabilizando cerca de oitenta reais por mês em ligações a cobrar.
Um dia eu estava em casa no sábado de manhã e a filha dela ligou a cobrar 8 vezes, sempre desligando quando atendia, tentando passar a ligação a cobrar quando a mãe atendesse. Foi a gota d'água. Chamei ela e disse:
"Olha, me parece que vc é uma pessoa muito sofrida, que nunca recebeu ajuda na vida, vc me passa esta impressão. Não sei porque, mas levo esta impressão de vc. Me lembra aquelas pessoas desacreditadas da vida, de onde nunca viram um gesto de ajuda. Nós não somos assim, ajudamos as pessoas. Sempre que viajamos, trazemos um presente para vc, sempre, para mostrar que faz parte da nossa vida e que estamos vivendo sobre o mesmo teto. Tudo o que vc solicita nós concordamos. Não sei porque vc está agindo assim. Eu não estou aborrecido com vc, mas estou me sentindo magoado, como acontece quando vc ajuda alguém e este alguém te devolve o troco com outra moeda. De agora em diante, não quero mais ligações a cobrar para nossa casa, e vamos colocar um limite no valor das ligações que vc fizer. Após este limite, vc vai pagar a diferença. E minha mulher solicitou: quando for faltar, por favor me avise."
Após esta conversa, a coisa piorou. Passou a fumar mais e sem procurar fazê-lo fora dos ambientes, passou a fazer menos o serviço e comentou com minha outra empregada que queria ser mandada embora, e continuou a faltar sem avisar. E olha que somos só nós dois em casa e eu almoço fora, saio de manhã e volto à noite. Também deixou transparecer que não ia prosseguir de forma correta e que daria motivos para ser mandada embora. Isto tudo com apenas 4 meses.
Minha mulher decidiu mandá-la embora, pois estava claro que ela queria o acerto de contas. Estava também claro, pelos constantes adiantamentos solicitados, que ela estava "pendurada" em contas para pagar.
Claro que nunca descontamos as ligações ocorridas, mesmo depois de avisar. Mas agora era chegado a hora do acerto de contas e nós tínhamos R$ 750,00 da dentadura para descontar. Para ela, isto era muito dinheiro. Nós estávamos muito aborrecidos com ela.
Tomamos então a seguinte decisão: chamamos ela para conversar, e dissemos:
"Olha, nós sabemos que vcs passam por muitas casas onde as pessoas não olham por vcs. Vc me parece uma pessoa que sofreu na vida, que nunca teve apoio ou carinho e por isto não sabe retribuir o que nunca recebeu. Mas nós queremos te falar que as pessoas não são assim, e que de nossa casa vc vai ter ao menos uma boa recordação. Vamos te pagar todo o acerto devido, vamos te mandar embora e vamos de dar a dentadura de presente, vamos pagar ao dentista prestação que está faltando de R$ 250,00."
Depois, minha mulher me perguntou se estávamos agindo da forma certa.
"Sim estamos, pois ela vai encontrar outra casa para trabalhar e a vida vai se encarregar de mostrar a ela as diferenças que existem. Vai mostrar que se deve cultivar o bem e preservá-lo. Se ela nunca aprender, vai receber "nada" em troca. Mas quem sabe vai um dia parar para pensar e refletir: era uma casa pequena, só com duas pessoas, me trataram bem e ainda me deram um presente, apesar de eu ter agido para provocar a minha demissão".
Talvez ela tenha aprendido algo. Talvez não... Mas se existe uma chance de ela aprender algo na nossa casa. Se acontecer, quem sabe ela faz alguma coisa boa, dentro dos seus limites, para outra pessoa? se não fizer, não importa, ninguém deve fazer as coisas pensando no que vai ter em troca, mas deve fazer apenas porque acha que é certo fazer.
É pouco? claro que é, são apenas R$ 750,00. Mas o mundo não e faz melhor com uma só pessoa doando toda a sua fortuna para instituição de caridade, mas sim com bilhões de pessoas fazendo pequenos gestos de ajuda, aí sim o resultado é enorme.
Apesar do que se fala e se lê, acho que a humanidade caminha para um mundo melhor. Cada vez mais pessoas mais evoluídas chagam nesta nossa terra. São pessoas mais esclarecidas, mais instruídas, a evolução da humanidade cuida disto. Tudo melhora, se bem que muito mais devagar do seria desejado. Mas evoluímos, sim. Com todas as notícias da televisão, mesmo assim evoluímos. Se pratica nos dia de hoje menos injustiças do que ontem, e vai ser assim no futuro.
Vamos evoluir, sim, mesmo que lentamente. Nesta caminho, muitas coisas ruins vão acontecer. Só é necessário que as coisa boas sejam em número maior.
Um abraço,
Marcio Lima
Posted by: Marcio Lima | 01/07/2009 at 11:07 AM
Olá, Ricardo!
Há tempo acompanho seu artigos e matérias, mas hoje em especial , a leitura me tocou. Esta me remeteu a lembranças do passado, que não lembrava mais até então.
Compartilho da premissa que fazer o bem sempre é a melhor saída. E que confiar nas pessoas pode ser melhor do que imaginamos.
Sempre confiei nas pessoas e tentei ajuda-las de qualquer forma e sem grandes pretensões e como consequência sempre fui muito criticada pela minha bondade ou melhor ingenuidade nos olhos dos outros e com grandes recompensas e gratidões daqueles que foram favorecidos.
Penso se cada um fizer bem sua parte e enxergar um pouco mais crédulo no lado bom das pessoas o mundo seria muito melhor.
Desejo muito sucesso em sua trajetória e obrigada por você transmitir boas informações aos seus leitores.
Um Abraço,
Luciana Mendes
Posted by: Luciana Mendes | 01/07/2009 at 12:49 PM
Oi, Ricardo.
Endossando todos os comentários acima referente ao feliz tema que publicou, quero dizer que no mesmo dia que o li, uma colega de trabalho veio me pedir um conselho sobre como agir com alguém que só fazia mal à ela. Imediatamente enviei seu email e ela, no dia seguinte, veio me agradecer pela mensagem que a fez mudar de atitude, "se vingando com a Fraternidade".
Obrigada, Ricardo. ;)
Abraços....Patrícia
Posted by: Patrícia Colucci | 05/07/2009 at 12:29 AM
Vide o trabalho de Jaime Jaramillo, um vizinho Colombiano que está fazendo a diferença há mais de 30 anos...
http://www.papajaime.com/portal/
Isso sim é que é por em prática os seus sonhos.
Abraço.
Posted by: Gustavo Barizon | 10/07/2009 at 03:23 PM
Ricardo,
Boa tarde!
Quando tinha aproximadamente 20 anos, li uma biografia sobre o Gandhi. Ela foi escrita por dois autores ingleses.
Em determinado trecho, os autores abordam a seguinte passagem: “Que logo após a assinatura da libertação da Índia do jugo britânico, Gandhi estava diante de uma platéia de aproximadamente 2.000 pessoas – ele iria fazer o seu primeiro discurso. Uma pessoa, então, perguntou ao líder espiritual: Gandhi, depois de tudo o que os ingleses fizeram contra você, as prisões, as humilhações, etc. você é capaz de perdoá-los? – Perguntou e ficou aguardando a obvia resposta – claro que sim!!! – Mas Gandhi ao invés de responder, ficou quieto e pensativo. Depois de alguns segundos, respondeu: Não eu não sou capaz de perdoá-los. O inquiridor, pasmo, retrucou: Como não? Você é o Gandhi, um Santo. Como não é capaz de perdoá-los? Gandhi, em seguida, olhou suavemente para o “entrevistador” e completou: Eu não posso perdoá-los porque nunca me senti ofendido. Lutei a favor do meu povo, nunca contra os ingleses.
Bom, depois que li este livro e, especialmente esta passagem, tive, mesmo que apenas intelectualmente, a dimensão da minha própria inferioridade e, diante dela, estruturei o meu crescimento em cima do perdão e da fraternidade. Muitas vezes, ainda, me pego diante dos meus meandros, que vão se revelando diante da minha busca de ser melhor.
Um abraço fraternal.
Roberto Medeiros
Posted by: Roberto Medeiros | 24/07/2009 at 06:48 PM
Olá, Ricardo.
Recebi de um amigo do nordeste (sou de Porto Alegre) o texto "A minha vingança é a fraternidade". O amigo que me mandou a mensagem estudou comigo nos tempos de técnico em contabilidade, entre 1973/1975. Reencontramo-nos poucas vezes depois, a última talvez há uns 15 ou 20 anos sempre rapidamente.
Por muitas vezes procurei-o inclusive na Internet, até, finalmente, talvez há uns 3 anos, localizá-lo lá em Recife, PE.
Foi-me uma felicidade imensa, e ela dobrou quando, após o primeiro contato, senti a mesma alegria da parte dele. E, devo dizer, ainda que às vezes matávamos aula juntos (certo? errado?), foi uma pessoa que me impressionou pela simpatia, pela educação, pela preocupação com os outros e pela ética, sobretudo pela ética e retidão. Foi e é um amigo de verdade, daqueles que não se consegue ter mais que 10 na vida.
Reencontramo-nos pessoalmente 3 ou 4 vezes, mantemos contato. Se não fosse ele que tivesse me mandado este texto, ainda assim seria dele que me lembraria. Sempre pelo certo, pelo cooperativo, durante muito tempo me deu carona de carro quando eu dependia de onibus e nunca me deixava a meio caminho se estivesse chovendo ou muito frio embora tivesse que desviar do próprio caminho e seus recursos também não fossem tão expressivos numa época em que estourava a primeira crise do petróleo.
Em pessoas como ele tento me espelhar. Ele me deu um presentão através deste texto maravilhoso de sua autoria. Ainda que às vezes a realidade cruel do dia a dia nos choca (não sei se hoje aconselharia meu filho a ir em frente nesta turma do Gerson), creio que de fato precisamos plantar muitas sementes de ajuda, cooperação, confiança, perdão e fraternidade. Ainda que morramos sem vê-lo, é a única fórmula possível para se manter vivo sonhando com um mundo melhor.
O texto realmente é EXCEPCIONAL e vou fazer questão de formatá-lo, e, com a devida autoria, repassá-lo ao maior número possível de pessoas.
Obrigado Mateus, e obrigado e parabéns, Ricardo.
Renato
Posted by: Renato Pires | 24/07/2009 at 07:10 PM
Olá Ricardo,
Fantástico o texto, como é bom ler coisas bacanas pela manhã que possam nos inspirar sobre valores, crenças e principalmente por generosidade....
Parabéns.
Posted by: Allan Pitter Pressi | 18/10/2011 at 09:26 AM